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Brasil, tira tua m?scara! Gay Masculino

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? certo que nenhuma sociedade pode se desenvolver sem leis, mas tampouco pode faz?-lo caso estabele?a nelas os limites de sua civilidade. O ethos de um povo ? necessariamente composto pelo aperfei?oamento moral individual que ? alimentado por atos como caridade, sacrif?cio e busca pela transcend?ncia que, pela sua natureza, n?o poderiam ser mat?ria de lei humana. ? este mesmo requisito de espontaneidade que os torna nobres e nos alcan?a bens elevados, sendo neles, como nos lembra Arist?teles, que as virtudes se manifestam mais claramente, mais que na mera absten??o de a??es b?sicas, aquelas voltadas para necessidades vulgares. Ainda que estas priva??es sejam necess?rias, j? que, conforme ensina S?o Felipe N?ri, n?o h? santidade sem mortifica??o, nem mesmo os deveres m?nimos teriam fundamento moral sem uma fonte pr?via de sentido que lhes seja causa final.

Resumidamente, as leis humanas, quando justas n?o s?o suficientes para a plenitude do homem e quando contr?rias a ela n?o s?o justas. Se uma lei reduz a propens?o ? caridade e promove desarmonia social, ela deve ser desobedecida pelo simples fato de que a virtude e a harmonia s?o os ?nicos motivos pelos quais criamos leis em primeiro lugar.

A lei positivada ? um substituto temer?rio para uma fundamenta??o ontol?gica da justi?a, esta t?o relegada por Epicuro a um plano utilit?rio tendo por isso mesmo subestimado a import?ncia da identidade familiar e p?tria. ?, contudo, no seio destas institui??es proximais ao indiv?duo que as melhores virtudes s?o cultivadas devido ? concretude da rela??o de alteridade que assim se estabelece. Aprendemos moralidade e amor ao lidar com algu?m espec?fico e n?o abstraindo quimeras rousseaunianas de coletividade.

H?, contudo, o imenso risco da fraternidade sem justi?a expressa pelo ad?gio maquiav?lico ?aos amigos os favores e aos inimigos a lei?, e que s? pode decorrer de uma cosmovis?o que admite a possibilidade de amor verdadeiro sem fundamento num par?metro moral absoluto. A jusfilosofia escol?stica de autores como os padres jesu?tas Francisco Su?rez e Luis de Molina ? acurada ao aclarar que os privil?gios r?gios eram fundamentados em deveres divinamente ordenados mais que em direitos divinamente concedidos. Sem a subordina??o ? primeira causa eficiente, que ? Deus, e cuja Lei Eterna ? universal, ? imposs?vel que as rela??es com o pr?ximo sejam harmoniosas. A fun??o do legislador terreno deve, assim, restringir-se a salvaguardar princ?pios gerais de limita??o negativa ? a??o humana, inclusive a a??o da pr?pria autoridade. Trata-se de um bem econ?mico cujo provedor, o governante, est? subordinado aos entes respons?veis pela a??o moral positiva como o indiv?duo e a fam?lia, e somente a servi?o deles pode exercer quaisquer prerrogativas de poder, impedindo a injusta coer??o que atenta contra a manuten??o desta mesma hierarquia em cujo topo est? o Ser. Toda lei que atenta contra a liberdade individual com a desculpa do bem-estar coletivo faz exatamente o contr?rio ao amea?ar a harmonia social atrav?s da perda deste sacramental do Ser absoluto que ? o indiv?duo.

A preserva??o do Ser, para usar um termo que Hans Jonas imanentizou, exige que entendamos, como explica Parm?nides, que tudo o que somos Nele est? contido, mas tamb?m que, contrariando o abstracionismo plat?nico, saibamos que podemos contempl?-Lo por meio das coisas criadas: ?Desde a cria??o do mundo, as perfei??es invis?veis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam vis?veis ? intelig?ncia, por suas obras?. (Romanos 1,20).

O brasileiro sempre soube muito bem disso e o demonstra quando, apesar de desrespeitar todas as normas de civilidade no tr?nsito, n?o hesita em dar passagem ao colega motorista que fa?a um sinal com a m?o e valha-se de um simp?tico vocativo futebol?stico: ?- ei corintiano?.

Embora tipificado como ?aventureiro? por S?rgio Buarque de Holanda, dotado de uma energia imediatista voltada para o ganho de curto prazo, o povo da Terra de Santa Cruz herda o gregarismo iberista descrito por Gilberto Freyre e se torna capaz de construir rela??es ?ntimas, duradouras, calorosas e elevadas a partir de seu c?rculo proximal. Tanto isso ? verdade que a brasilidade pode ser melhor definida pelos elementos comuns da mir?ade caleidosc?pica de ?brasis? locais que pelo on?rico conceito de unidade nacional que nos foi imposto na Era Vargas. H? uma for?a civilizat?ria inquebrant?vel na roda de amigos que joga sinuca no mesmo boteco, e que cria uma rede de subsidiariedade capaz de vencer qualquer barreira legalista ou racial, mas que contrasta com o oportunismo inconsequente com que cada um deles, individualmente, aproveita-se da legisla??o trabalhista em seus empregos em bairros distantes.

Sim, somos movidos pela ?Lei de G?rson? (o meio-campista contratado para um comercial para afirmar que, como bom brasileiro, gosta de levar vantagem em tudo), mas um ambiente de competi??o ego?sta e impessoal seria contr?rio a este objetivo. Para contornar o problema, o povo da Am?rica Lus?fona encontrou no calor humano a maneira de viabilizar seu empreendimento civilizat?rio. Por pior que sejam as institui??es nacionais, o homem cordial brasileiro ? capaz de, pela intimidade, civilizar-se de uma forma natural e v?vida muito mais profunda que aquela intermediada pela formalidade. Uma escrava como Chica da Silva ? capaz de ascender socialmente em plena vig?ncia da escravid?o atrav?s do amor de Jo?o Fernandes de Oliveira, o que aponta para a cordialidade como uma das causas do Brasil ter a felicidade de ser, nas palavras de Gilberto Freyre, ?a mais avan?ada democracia[1] racial do mundo?

Lamentavelmente, por?m, os benef?cios da hospitalidade brasileira s?o limitados em escopo e se desvanecem com a dist?ncia. Esquecemos o cap?tulo 10 do Evangelho de S?o Marcos que nos ensina que ? sendo servo de todos que alcan?amos a primazia. Se ? na alteridade que encontramos o sentido da nossa exist?ncia, segue que somente podemos plenificar estes incont?veis ?brasis? exortando-os ? obedi?ncia ? lei natural que, como constata C?cero, consiste na reta raz?o em conformidade com a natureza. Mais diretamente falando, h? uma natureza humana que n?o pode ser aviltada pelos privil?gios que o brasileiro gosta de obter para si e seus protegidos.

A solu??o, com efeito, n?o ? o abandono do nosso amado jeitinho, mas sua universaliza??o. Ora, n?o seria este o grande exerc?cio dos santos? Tentar amar a todos como se entes queridos fossem? E ? conceb?vel a ideia de amar sem respeito ? liberdade alheia que o jeitinho brasileiro preserva? Erra o antrop?logo Roberto DaMatta ao afirmar que esta nossa metodologia de solu??o de problemas ? apenas um dos efeitos delet?rios da m? pol?tica, quando se trata de um rem?dio contra ela. Uma an?lise mais hoppeana da antropologia cultural brasileira leva ? conclus?o inversa: a democracia ? um regime de governo particularmente danoso ao nosso pa?s e ? nossa ess?ncia.

O economista John Jewkes ? certeiro ao constatar que a din?mica democr?tica resulta na organiza??o de grupos de interesse politicamente influentes que, na busca por privil?gios ?s custas do resto da sociedade, acumulam erros econ?micos resultando num arranjo que ningu?m aprovaria, mas que ningu?m consegue combater. Transponha este princ?pio geral para um pa?s onde vigora a Lei de G?rson. Some-se a isso uma imprudente ataraxia em rela??o a tudo o que diz respeito ? coletividade, esta surgida, segundo Capistrano de Abreu, da atrofia das fun??es sociais, mas que contrariando sua an?lise positivista, tem origem na substitui??o do empreendimento privado pelo planejamento estatal. Eis a f?rmula que gera os calhama?os regulat?rios, subs?dios, barreiras comerciais, monop?lios e reivindica??es sindicais que condenam a let?rgica na??o, deitada eternamente em ber?o espl?ndido, a um verdadeiro ?hunger games? entre grupos de interesse. N?o ? sem motivo que Stanislaw Ponte Preta, com seu humor ?cido, resumiu: ?A prosperidade de alguns homens p?blicos do Brasil ? uma prova evidente de que eles v?m lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento?.

Ora, se ? o ac?mulo de leis injustas o flagelo nacional, poucas coisas poderiam ser mais salutares que o jeitinho brasileiro. O que seria de n?s se n?o f?ssemos esta cativante terra das leis que n?o pegam? Universalizar a caridade contida no jeitinho poderia finalmente mover o brasileiro na dire??o da defesa do bem comum, especialmente da liberdade difusa, fazendo inveja aos engajados povos eslavos que venceram a Uni?o Sovi?tica e esmagando o contratualismo positivista que nos assola.

Infelizmente, todavia, estamos sendo culturalmente extintos. A terra do neg?o, do alem?o, do baixinho e do cabe??o est? se tornando um quintal do politicamente correto globalista com todo o ?dio e falsa inclus?o que nele est? contido e que dele decorre. Quando a mulata do Sargentelli na Zez? Borracharia (seu pneu furado ? minha alegria) d? lugar ao modelo andr?gino usando m?scara numa campanha de um grande banco, ? porque fomos desvirtuados. ?ramos o povo apaixonante que em plena Crise dos M?sseis, na imin?ncia de um apocalipse nuclear, cantava ?lan?a Cuba, Cuba lan?a, quero ver Cuba lan?ar?, mas o globalismo nos transformou em importadores das piores tend?ncias mundiais em nome da consci?ncia social e em detrimento do nosso humor desprendido. E quando a tend?ncia ? a pandemia de loucura e terror que contaminou o planeta durante a fraudemia, tapamos com uma m?scara exatamente aquilo que poderia salvar o Brasil: a face do pr?ximo.

N?o, esta distopia onde as pessoas usam uma focinheira asfixiante para correr na rua n?o pode ser o mesmo jardim id?lico onde empreendedores cobravam 80 reais para conduzir o ve?culo do cliente alcoolizado atrav?s da blitz. Eu quero de volta o meu Brasil que as elites mundiais asfixiaram com as m?scaras. Aquele onde a brasileira se recusa a esconder sua beleza tropical atr?s de um pano facial. Aquele onde o seguran?a discute com voc? por causa do p?nalti duvidoso na final do campeonato estadual e n?o por causa de legisla??o estatal.

A solu??o era universalizar o jeitinho, ou seja, deixar o seu pr?ximo respirar livremente ao inv?s de deixar nosso solo ser invadido pela frieza ass?ptica e impessoal de uma formalidade mundialista que sequer tem base cient?fica. Perdemos a autenticidade para alimentar uma f? cega naquilo que vem de fora. Trata-se do mesmo erro da ?ndia Moema, personagem de Santa Rita Dur?o que morre afogada ao se lan?ar ao mar no encal?o de seu amado Caramuru. Este a havia rejeitado para casar com Catarina Paragua?u, convertida ? F? Cat?lica. Assim como a desditosa falecida, o brasileiro anseia por salva??o vinda do meio externo e contingente, esquecendo-se da busca interna por aquilo que ? universal e necess?rio, como a justi?a de Deus. Canetadas de tiranetes de cal?a apertada mancomunados com a China n?o v?o nos salvar dos micr?bios. Nem os devaneios da OMS e de seu l?der marxista terrorista, nem as vacinas corporativas de bilion?rios misantropos e nem o h?bito de usar focinheira, importado das partes mais tristonhas da ?sia.

Sugiro ao caro leitor que desista da ideia de um mundo sem doen?as, principalmente se o seu plano for a ado??o de uma medida que al?m de totalit?ria ? contraproducente, como o uso de m?scaras, j? que elas aumentam a contamina??o e reduzem a imunidade. Fa?a como o ?ndio Peri, que no romance O Guarani, de Jos? de Alencar, n?o conseguiu salvar a tribo inteira, mas salvou Ceci.

N?o d? para mudar o fato de que somos formas org?nicas de vida sujeitas a doen?as, mas d? para proteger a pessoa que est? ao seu lado contra uma fobia desumanizadora que n?o apenas lhe maltrata o corpo, mas tamb?m a alma, uma vez que a leva a exigir que os outros vivam de forma incompat?vel com a natureza humana apenas para tranquiliz?-la. Fa?a-a reaprender a sentir o frescor dos ventos e da liberdade. Ensine-a, como pregava L?vinas, a incluir em si mesma a alteridade, e que isso n?o implica em trocar liberdade por assepsia man?aca e sim em defender a liberdade de todos se quiser manter a sua. Exorte-a a universalizar o jeitinho brasileiro, tratando a todos como ela trata aqueles amigos ?ntimos que frequentam a casa dela sem m?scara.

N?o ? do legalismo que brotam os frutos do bem comum, mas da caridade irrigada pelo trato pessoal. Foi, ao menos em parte, da amizade terna entre os abolicionistas Joaquim Nabuco e Andr? Rebou?as que os grilh?es da escravid?o se romperam no Brasil para j?bilo do C?u e da Terra. Agora que amea?am at? o direito de respirar ? chegada a hora de ensinar ao mundo o jeitinho brasileiro. Nas palavras do literato Fernando Teixeira de Andrade, ?? o tempo da travessia: e, se n?o ousarmos faz?-la, teremos ficado, para sempre, ? margem de n?s mesmos.?


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Notas
[1] Gilberto Freyre usa ?democracia? como sin?nimo de liberdade, uma terminologia que eu contra recomendo, mas que transcrevi em prol da fidedignidade da cita??o.

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Texto desabafado por Igor , em Terça, 16 de Março de 2021
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